quinta-feira, 9 de março de 2017

Em pleno século vinte e um...


A única coisa que o tempo garante é a velhice. O resto é tudo por nossa conta e risco. Não adianta deixar sujeira na casa, pensando que o tempo limpa. Tente pagar as suas contas com o tempo e verá que quanto mais o tempo passa pior fica. Mas as pessoas continuam nessa crença ingênua de que o tempo cura tudo. O tempo não cura nada, porque a função do tempo é envelhecer. E envelhecer e curar são coisas bastante diferentes.

É bem verdade que algumas coisas envelhecidas ficam melhores, vamos pensar no vinho, por exemplo, mas isso não é mérito do tempo; outras coisas ficam piores: uma chateação que vira raiva, que depois vira ódio, que evolui pra vingança, que leva à morte. Mas a própria morte não resolve tudo. Se as pessoas matavam umas às outras no inicio do século, ainda continuam fazendo; se havia roubo, doenças, pobrezas, injustiças ainda continuam acontecendo, talvez com variações nos tipos e formatos, mas o tempo não resolveu isso também. As pessoas criaram novas formas, resignificaram as antigas e por aí vai.

É besteira achar que as pessoas evoluem com o tempo, no máximo ficam mais velhas e isso é só um sinal de que caminham para um fim muito pior: a morte.


Epitácio Rodrigues da Silva, 23, 02, 2017. Publicado na Webartigos

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Vou lhe contar um segredo...



Tenho uma certa reserva com pessoas que gostam de contar segredos. Talvez porque os dicionários sejam bastante explícitos na definição: segredo (s.m) aquilo que não se deve revelar; aquilo que só é conhecido de uns poucos;  ou talvez seja por causa de um provérbio que li, anos atrás, que dizia: “segredo entre três, só matando dois!” 
Com relação ao provérbio, abstraindo da apologia ao crime, que não concordo, o resto me parece fazer muito sentido. O segredo, para continuar secreto, só pode ser conhecido por aqueles que vivenciaram uma mesma situação e que, por alguma razão, não podem ou não devem torná-la pública. Então, quando alguém diz que vai contar um segredo, a afirmação correta seria:
- Vou lhe contar uma coisa que até agora era segredo!
Pois, todo aquele ou aquela que revela a alguém um segredo, ou seja, algo que não era para ser contado,  o  transforma em uma fofoca em potencial. O que é uma fofoca!? Caso não saiba, a definição de fofoca é: uma coisa que se conta a alguém, seguido da seguinte recomendação: “não conte a ninguém!”. Esse alguém, por sua vez, conta a outra pessoa com a mesma recomendação: “não conte a ninguém!”.
Por isso, toda vez que alguém diz que vai me contar um segredo, descubro a quem jamais devo revelar aquilo que só é conhecido de uns poucos: um segredo.


Epitácio Rodrigues da silva
21/02/2017

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Sugestão de Amigo



Hoje vou escrever rapidamente esta crônica. Pois tenho de acertar contas com amigo, melhor dizer ex-amigo. Não sou de falar da minha vida, muito pior de me envolver em brigas, mas peço que ouça a minha história e veja se não tenho razão.
Há uns seis meses atrás, disse a um amigo que estava sem inspiração para escrever. Ele me aconselhou a frequentar um bar muito famoso aqui da cidade.
- Ali não falta assunto. – disse ele - quando o pessoal bebe, começa a falar e aparece cada história que lhe faltará é tempo para escrever as crônicas que virão à mente a partir das situações pitorescas dos frequentadores desse bar.
Em princípio, não me pareceu uma ideia tão ruim. A única coisa que me incomodava era o fato de eu, até aquela data, nunca ter ingerido uma gota de álcool. Assim mesmo, resolvi acompanhá-lo ao bar.
No primeiro dia, ele sugeriu logo.
- Para fazer amizade com o pessoal, você chega lá pagando logo uma rodada de cana pra galera começar a soltar a língua. Apesar da desconfiança em relação à proposta, resolvi concordar. Dito e feito! Tão logo o pessoal começou a beber, surgiram as primeiras histórias. Porém, o nível não estava muito bom.
Ouvi atentamente, mas resolvi apostar no dia seguinte. O problema foi esse tal de dia seguinte.
Meses depois, minha esposa, começou a me questionar sobre os resultados desse projeto. Isso porque o meu salário estava ficando quase todo no bar. Com uma diferença: agora, além de pagar, eu bebia junto. As feiras, a mensalidade da escola das crianças e outros compromissos ficaram todos nas costas dela. Por causa de uma compra a prazo que fiz no comercio, meu nome foi parar no SPC (serviço de proteção de crédito).
Nos finais de semana passava o dia praticamente inteiro no bar. A situação era tão sintomática que bastava eu ir em direção à porta, pra meu filho perguntar:
- Já vai beber, de novo!?
Para me esquivar dessa e de outras cobranças e reclamações tanto da esposa quanto das crianças, passei a sair do trabalho e ir direto ao bar. Sinceramente, não entendia porque era tão difícil entender a importância daquele bar para alavancar a minha carreira como escritor. Cansado dessa situação, eu protelava a chegada em casa até a hora de dormir, assim não tinha que ouvir cobranças.
Minha filha, além de, às vezes, ir me buscar naquele ambiente, passou a odiar literatura, achando que os escritores são todos beberrões, pais negligentes e péssimos maridos.
Como já faz algumas semanas que estou dormindo na garagem, ontem quando cheguei em casa não percebi nenhuma movimentação.
- Já tão dormindo, melhor assim! - Pensei.
Mas, ao acordar, minutos atrás, encontrei um bilhete educado:
Eu e as crianças vamos passar uma temporada na casa dos meus pais, até que essa situação se resolva.
Então, após seis meses desde que escrevi a última crônica, resolvi fazer um balanço do que mudou na minha carreira de literato, depois da sugestão daquele meu amigo: em casa e no trabalho sou visto como um alcoólatra e irresponsável; no comércio local, ganhei a fama de caloteiro, e não tenho mais crédito algum; cansados de acreditar que eu ainda tinha jeito, minha família desistiu de mim jeito e foi-se embora.
Sem o apoio da família, sem dinheiro, sem crédito, só agora percebo: a razão que me levou ao bar, e ao consequente desmantelo da minha vida, não me trouxe nenhuma inspiração. pelo contrário, até parei de escrever, pois muito cedo descobri que os pinguços frequentadores de bar contam sempre a mesma história, todos os dias e uma centena de vezes.
Então, caro leitor, depois de lhe contar tudo isso, pergunto:
 - Tenho ou não motivos para querer, depois de escrever esta crônica, ir acertar as contas com esse meu ex-amigo?
Só espero que, chegando ao bar, ele não me chame para beber uma antes.


Epitácio Rodrigues da Silva, 13/02/2017

sexta-feira, 22 de julho de 2016

ESCREVA AQUI O QUE ESTÁ PENSANDO...



Eu abro a minha página no facebook e já dou de cara com ela, dizendo sempre a mesma coisa. Não sei se como uma ordem, ou apenas como uma mera sugestão. Sei tão-somente que ela está sempre lá, insistente e até um pouco indiscreta e invasora: “escreva aqui o que está pensando...” Por isso, acredito que já está passando da hora de termos uma conversa séria.
Quero saber, por exemplo, por que devo lhe dizer, com os dedos, o que estou pensando? Por que não me pergunta se estou a fim de conversar com você? Por que você não sugere algo como: “não quero saber o que você está pensando.” Pode até parecer uma postura indelicada da minha parte, mas não me sinto a vontade com essa sua pressão. Além do mais, tem dias que penso tanta coisa que você, janelinha, não comportaria. É bem verdade que também tem aqueles dias nos quais o penso mão consegue ultrapassar a linha da mediocridade. Mas, independente do dia, ou do estado de espírito, não preciso ceder à pressão. Não quero escrever o que estou pensando. Prefiro ficar na minha e guardar o silêncio digital.
Meus dedos, janelinha, não lhe falarão das minhas alegrias, preocupações, esperanças ou qualquer outra coisa que, eventualmente, esteja povoando a minha mente vagante. E sabe por quê? Por uma razão simples. Espero que não se ofenda janelinha, mas reparei que você não tem rosto, não tem face e muito menos tem sentimento. Reparei também que, apesar de insistir para que lhe diga o que estou pensando, você é sempre fria e muito indiferente ao que penso ou sinto. Por mais que lhe fale, sua reação é invariavelmente a mesma: mecânica e impessoal! Por isso, frente à sua insistência inconveniente, guardo o que é parte de mim para mim mesmo. Vou simplesmente continuar nos meus solilóquios. Se bem, janelinha, que o pensador e escritor Santo Agostinho, com quem aprendi a arte do solilóquio, traiu a si mesmo. Ele não resistiu à tentação do papel – “escreva aqui o que você está pensando” - e grafou nele seus solilóquios. Hoje o mundo inteiro sabe o que ele pensava naquela hora. Era até coisa muito boa de se dizer.
Não Janelinha, não vou ceder aos seus apelos ou imperativos, porque você não é uma janela muito sensata. Você não tem muito filtro. O que se diz a você, sussurrando com os dedos, você espalha para o mundo.

Epitácio Rodrigues, 22, 07, 2016.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Confira minha obra publicada no Clube de Autores em

Confira minha obra publicada no Clube de Autores em


Cronista anônimo: e outras crônicas é o título do novo livro de Epitácio Rodrigues, publicado pela editora Clube dos Autores. 
O livro é uma coletânea de crônicas nas quais o autor, um professor de Filosofia, apresenta algumas provocações filosóficas a respeito de situações e vivências do dia a dia, unindo a leveza e a linguagem acessível própria do gênero da crônicas às indagações que são muito características do pensar filosófico, levando o leitor uma nova forma de perceber o cotidiano.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O Estranho Sócrates


Estou começando a me convencer de que as praças são lugares muito interessantes para os cronistas. Meses atrás, numa das praças da cidade na qual moro, vi um homem franzino, de cabelos grisalhos, compridos e despenteados, aparentando ter uns cinquenta anos. Ele estava dialogando com interlocutores que meus olhos não conseguiam perceber. Mas, como ouvir alguém falar sozinho hoje já não é tão incomum, não foi exatamente isso o que chamou a minha atenção. O que me intrigou mesmo foi ele estar carregando alguns livros velhos debaixo do braço.
Era a primeira vez que eu o via, por isso fiquei na dúvida se se tratava de um morador de rua ou de uma pessoa com perturbações psíquicas. Mas, ao menos de uma coisa eu estava certo: aquela figura excêntrica e intrigante dava muito valor à cultura letrada ou literária. Meus olhos pareciam querer enxergar para além de um homem que, nos seus devaneios, carregava livros sob o braço. Eles, por alguma razão, queriam me mostrar ali um amante dos livros!
Quanto mais o observava, mais as perguntas povoavam a minha cabeça. Será alguém que leu demais e perdeu o senso da realidade? Será um professor de Filosofia que aderiu à escola de Diógenes, o cínico? Será um novo Quincas Borbas a gritar pelas praças e ruas desta cidade: “aos vencedores as batatas!” Até tentei saber um pouco mais a seu respeito, com alguns amigos nascidos nesta cidade, mas tudo que consegui foi um monte de imagens e achismos: é um louco, um esquizofrênico e coisas do gênero. Ao final, desisti de querer saber: o mistério da ignorância tem também seus encantos. Às vezes, quando passo pela praça, o vejo discursando ou em acirradas diatribes intelectuais com outros contendores, todos imaginários, claro! Nem sempre dá pra entender o que ele diz, mas quando escuto, sempre há termos eruditos misturados às palavras do uso comum.

Há qualquer coisa naquele homem amante dos livros, que me reporta ao velho Sócrates, amante da sabedoria. Seria uma espécie de Sócrates estranhamente atual?! O amante dos livros, como o Sócrates, parece um vagabundo loquaz que dialoga nas praças públicas, mas diferente do filósofo grego, os discípulos ou opositores desse homem, amante dos livros, só falam aos seus ouvidos, nunca aos nossos. É um louco, haverá que diga. Não sei. Sei apenas que às vezes ele está lá. Também não sei o que ele representa para nós, cidadãos lúcidos de hoje. Talvez aquele homem amante dos livros seja somente alguém mais autentico de que todos nós, porque vê a sua fantasia como verdadeira e a vivi como sua verdade. Nós, ao contrário, não cremos existir qualquer verdade, e ainda fantasiamos as nossas mentiras, revestindo-as de glitter para convencer aos nossos interlocutores. 

Epitácio Rodrigues da Silva

domingo, 29 de maio de 2016

VENDIDO OU COMPRADO, DÁ NO MESMO


Era pra ser apenas mais uma peregrinação pelos jornais online. Queria saber como estava o cenário político, com essa crise gigantesca que se revelou nos últimos tempos. Mas acabei me deparando com uma briga de egos e vaidades de alguns propagandistas da direita ultra-conservadora. Um deles acusava o outro de vendido à esquerda. A razão era simples. Depois que um jornal divulgou uma conversa gravada entre dois envolvidos na crise, um propagandista comentou que o diálogo entre os dois deixava claro que o impeachment da presidenta Dilma foi um golpe. O outro, imediatamente, bradou aos quatro ventos: “vendido!”
Confesso que achei estranho o comentário do primeiro propagandista, mas fiquei preso mesmo foi à explicação do seu acusador: “vendido!”
Só então me dei conta de que em muitos comentários, os defensores de uma política de direita usam essa acusação. Se um jornalista, um artista, um colunista da mídia que está vinculada até a alma com o projeto de direta destoa, já vem o ultimato: “vendido!!!” Comecei a achar tudo muito parecido a uma simbiose de tribunal da inquisição com leilão de opiniões. Com o mesmo martelo condenavam e arrematavam: “vendido pra esquerda!”, “comprado pra esquerda!”.
Se o provérbio que diz “cada um vê o mundo com os olhos que tem a da posição que está” for verdadeiro, é até fácil entender esse comportamento da direita na política brasileira. Se pra direita tudo é uma questão de mercado, as opiniões e pontos-de-vista também são economicamente tutelados. Algo mais ou menos como: “diga o que quer que eu pense e escreva e lhe direi o meu preço!” Considerar essa possibilidade me fez lembrar uma imagem apresentada por Schopenhauer (A Arte de Escrever, p. 2012, 22), para quem alguns pensamentos são como perucas, cuja relação com a cabeça é superficial, exterior e, por isso um corpo estranho para quem a usa. Nada contra quem usa peruca, apenas contra quem tem opinião e pontos-de-vista economicamente tutelados.
Mas não quero ser injusto. Talvez nem todos aqueles que gritam “vendidos” usem de má-fé. Alguns deles podem fazê-lo apenas por falta de argumento mesmo! Mas isso não melhora a situação. Um pensamento comprado não merece credibilidade, porque o comprador é quem determina qual e como deve ser a opinião. Mas, pensando bem, aquele que chama outro de vendido porque não tem nada mais consistente para argumentar é um sujeito de uma cabeça economicamente pobre de conhecimento. Talvez não tenho muito o que vender.
Nos dois casos, é preciso que alguém lhes diga: algumas pessoas constroem seus pontos-de-vista a partir de um esforço honesto de entendimento dos fatos. Só pra deixar claro, não acredito que isso se aplique aos contendores as quais fiz vaga referência acima.
Enfim, não sei se aos propagandistas dessa direita brasileira - irônica, sarcástica e autoritária - falta argumentos ou boa-fé. O que eu sei é que, vendidos ou comprados, dá no mesmo: tudo tem cara de mercadoria ruim!


Epitácio Rodrigues da Silva

sábado, 21 de maio de 2016

POR ENTRE GRADES: ASAS E RAÍZES



Da janela do meu quarto, por entre grades, vejo o Colibri ferido. O pobre pássaro tinha uma das asas quebrada. Asa quebrada, liberdade tolhida. Era uma cena deveras triste, fitar o pequeno pássaro – senhor dos ares – preso ao chão, quando seu destino e sua natureza chamavam-no às alturas. Seu canto parecia um lamento que transpassava o meu ser e contorcia-me as “entranhas”. Aos poucos, aquele canto ou gemido foi dando lugar ao silêncio. Silêncio que parecia resignação. Não havia mais canto, a dor tem, às vezes, um teor ascético: “abstém-te e suporta”. Mas, fazer ascese é sempre morrer um pouco.
Olhando o Colibri, vi apenas o quanto ele era prisioneiro. Se pudesse raciocinar, agora saberia avaliar a riqueza dos momentos nos quais rasgara o vento e sentia as asas da liberdade. Tempos que podia alçar voos ao encontro do néctar da mais nobre Açucena. A flor rubra como o sangue e singela com um anjo.
Pobre Colibri, envolto no manto do silêncio resignado. Se pudesse amar, ficaria triste ao sentir que não ouviria mais o sussurro da Açucena bailando diante dos seus olhos, embalada pelo vento de suas asas. Imaginar aquele som como uma música aos seus ouvidos e aquela cena como um espetáculo aos seus pequenos olhos.
A vida deste Colibri, ferido e aprisionado ao solo como uma árvore pela raiz, agora está por um fio. A ave pequena nascida para as alturas parece saber que sua vida é, em grande parte, dom da Açucena, quando esta lhe oferecia a seiva da vida. Se a nobre flor fosse uma mulher, creio que a seiva não se chamaria néctar, mas amor. E seria o amor de Açucena o único laço admissível a anelar o senhor dos ares.
Pode-se privar o Colibri de voar, como se pode privar o ser humano de amar. Porém, nos dois casos será sempre uma sentença de morte.
Epitácio Rodrigues

In: DUARTE, Elieldo Carvalho & RODRIGUES, Epitácio. As Portas do Tempo nos Muros da Vida. Crato: BSG, 2013, pp. 31-32.

sábado, 14 de maio de 2016

SOBRE O MURO


29 de junho de 1994, meia-noite, sentado sobre um pequeno muro em frente à sua casa, do outro lado da rua, um jovem professor de estatura mediana, rosto de aparência comum, amante da poesia, observava a rua. O sereno da noite cobria a paisagem como uma nuvem branca, que combinada à iluminação pública, dava à rua uma aparência pálida.
Junto à palidez da cor e do sereno, pairava um silêncio quase sepulcral; nada de vozes, nada de passos, nada de pessoas. A rua estava deserta. Apenas um grilo rasgava a noite adormecida com o seu cricilar.
O jovem professor, sob a luz da lua, ensaiou uns versos.
“Olhando a lua clareando a rua...”
Olhou o conjunto: a rua, a lua, a luz, o sereno, a poesia. Tudo era tão triste e tão deserto, sem vida e cinza. Caçou interiormente alguma razão para não estar em sua casa, do outro lado da rua, deitado confortavelmente na sua cama.
- O que faço aqui, em cima do muro, meia-noite? A indagação parecia não atingir toda a eloquência do momento.
- O que faço aqui? Voltou seu olhar para os rascunhos em sua mão.
“Olhando a lua...”
Desde muito cedo, quando ainda estava nos átrios da adolescência, participara de grupos de jovens, de comunidades... E naquele tempo proclamava entusiasta a transformação social, mas paradoxalmente, não compreendia porque era difícil acontecer.
- Se odos querem o bem, a paz, a justiça, por que o mundo não muda? Já naquela época tais perguntas o acompanhavam como um espectro.
Naquela noite, de 29 de junho, porém não pareciam ser estes os grandes questionamentos daquela solitária figura sentada sobre um muro de um metro e vinte.
- O que faço aqui?
Cada vez que este questionamento surgia, sua mente lançava-se nas cortinas de poeira que apagara da consciência seus dias. As lembranças, aos poucos, iam espalhando a poeira que envolvia o arquivo da memória.
Paulatinamente começavam a surgir pessoas, paisagens, presenças. Seu trabalho, tão mal remunerado que dava para entrar no livro dos recordes. Não há muitas glorias no oficio de professor. A sala, o quadro negro descascando-se de tão velho; o giz de cal; o piso vermelho de cerâmica; os alunos, sonolentos, depois de um dia devotado ao labor do campo. Outros alunos, verdade seja dita, não sabiam claramente para que estavam ali.
Após a sua última aula, o professor caminha até  a sua casa- percurso devia durar oito a dez minutos – senta-se no muro em frente a sua residência, convicto de uma única coisa: não sabe porque ainda faz aquilo, naquele lugar, naquela vida. Enquanto estava mergulhado em suas elucubrações, foi tomado por um grande espanto.
- Tudo é efêmero! – disse atônito. Os rascunhos caíram de suas mãos sem que ele se desse conta. Tinha os fixos na rua, mas parecia absorto em si mesmo. A felicidade é uma busca frustrada. Uma máscara a esconder o que, de fato, oprime a todos nós: o cotidiano!
-Tudo é efêmero! Não era a resposta mais otimista. Era tão somente a resposta verdadeira. E a verdade nem sempre sorri para quem a desvela.
Sou um ser efêmero! Seus olhos pareciam querer saltar da face. Fitou mais uma vez a nuvem cinzenta que pairava sobre a rua pálida e deserta.
Eis o cotidiano – pensou – uma nuvem cinzenta e pálida que mascara a existência efêmera. Acenou paulatinamente a cabeça como se quisesse que concordava consigo mesmo. Saltou do muro, apanhou os rascunhos no chão, atravessou a rua, e, depois de abrir cuidadosamente a porta, para não acordar os seus pais, entrou, dirigiu-se ao seu quarto e adormeceu sobre a cama como fazem todas as pessoas efêmeras.
Epitácio Rodrigues

In: DUARTE, Elieldo Carvalho & RODRIGUES, Epitácio. As Portas do Tempo nos Muros da Vida. Crato: BSG, 2013, pp. 21-23.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

QUESTÃO DE PROPÓSITO



Já faz algum tempo que acompanho quase diariamente a página Jornal do Leitor, do jornal O Povo online. Gosto de lê a última crônica publicada, as poesias e os artigos de opinião. Mas ontem, quando acessei a página das crônicas, estava lá o título: “Qual é o seu propósito?”. Cliquei sobre ele, mas nada de texto, além dele mesmo. Comecei a pensar na hipótese de ter acontecido, na hora de publicar, alguma falha técnica e somente o título foi postado.  Até aí tudo bem, é totalmente compreensivo.
Porém, depois de um tempo, comecei a considerar que título e texto podiam ser a mesma coisa. Afinal, esse universo da Literatura é muito versátil e inusitado.
Essa possibilidade me deixou bastante intrigado. Não demorou muito, eu já me via mergulhado numa teia de indagações. Se realmente o objetivo do texto (ou título) for nos provocar a refletir sobre a questão do propósito, como responder a uma indagação dessa natureza? Antes de clicar ali, tudo era mais simples. O meu propósito era somente lê a última crônica publicada. Agora já nem sei mais se li uma crônica, ou se li apenas o título.
E se a pergunta sobre qual é o meu propósito - que encima, encorpa e encerra o texto - não se referir a qualquer propósito; mas tiver, para além disso, um caráter mais existencial, do tipo: “qual é o seu propósito na vida? Se o autor quiser nos convencer do erro de Sartre em achar que “todo ente nasce sem razão, se prolonga por fraqueza e morre por acaso” (Náusea, p. 197). Se for ele uma pessoa de fé, que acredita, como disse alguém, que “toda criança que nasce é sinal de que Deus ainda espera alguma coisa dos homens”?
Pra encerrar esta conversa, quero dizer ao autor anônimo que, se junto ao título devia ter sido publicado um texto, ao menos lhe sirva de consolo o fato de que só o título já gerou uma crônica. Porém, se o intento era provocar uma reflexão sobre o propósito como uma questão fundamental para o ser humano, devo confessar ao autor da crônica, ou do título ou da crônica-título: eu não sei ainda qual é o meu propósito, fico devendo a resposta, como você ficou devendo o texto (ou não)!


Epitácio Rodrigues