segunda-feira, 16 de março de 2015

“ESSA CHARGE INCITA A VIOLÊNCIA”

 
Não, esta não é uma crônica sobre o Charlie Hebdo. A charge em questão é a do Chico Caruso, publicada no dia 08 de março em O Globo. Tomei conhecimento dela na segunda, no trabalho, antes do expediente.
“Como podem publicar uma coisa dessas com a presidente e logo no dia da mulher?” indignava-se um. “Não pode, é uma falta de respeito”, dizia outro.
– O que foi que aconteceu? – perguntei.
– Domingo agora no jornal O Globo saiu uma charge daquele Chico Caruso. A charge era a presidente Dilma sendo decapitada.
Alguém poderá dizer que a charge não era bem assim. Eu sei disso, mas foi assim que ela foi a mim relatada e era essa a imagem que se formava em meu pensamento. Automaticamente minha imaginação tentava reconstituir a charge: cabeça cortada, o machado, o sangue... Isso me deixava muito mal.
Antes que alguém possa questionar (e condenar) as ações da minha imaginação e até (quem sabe?) achar contraditório eu ser uma pessoa contrária a violência, mas imaginar uma crueldade tão dantesca, faço a defesa dessa minha faculdade mental recorrendo à santa Teresa D’Avila, que, no seu livro Castelo Interior ou Moradas, chama a imaginação de louca, pelo fato dela, muitas vezes, ser incontrolável. Como dito acima, a minha estava no automático.
O pessoal continuou falando. Ouvi sobre passar dos limites, ofensas e perseguição; ouvi nomes de políticos e de partidos; ouvi sobre mídias, oligarquias e interesses; ouvi sobre tanta coisa e das coisas que ouvi, esta soou como um tiro: “essa charge incita a violência”. Eu não conseguia falar nada. Estava mal. Em meio a tanto sangue, a única pergunta que formulara no pensamento era: “como o Chico Caruso foi fazer uma charge dessas?”
Hora do intervalo. O assunto sobre a charge continuava sendo a pauta. Descreveram-na melhor e o equívoco foi desfeito: não era a cabeça da presidente cortada. O desenho fazia referência às execuções do grupo terrorista do Estado Islâmico. Dilma estava ajoelhada com aquela roupa amarela e o carrasco atrás, todo de preto, encapuzado, só os olhos de fora, com um punhal pronto para degolar. Isso desfez a imagem sinistra e sanguinolenta que minha imaginação estava reconstituindo a partir do “retrato-falado” da charge que me fizeram no começo da manhã.
Também parei de inquirir o desenhista da perspectiva de até então – com alarde e desapontamento. Lembrei desta frase que é atribuída a Albert Einstein: “tempo difícil esse em que estamos, onde é mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito.” Acredito que ele tenha mesmo dito isso. Há dois escritos seus que me fazem pensar assim: as correspondências que trocou com Freud sobre guerra e paz, após a 1° guerra; e o livro (que é uma pena não ser mais editado!) “Como vejo o mundo”.
O assunto ainda estava rendendo. Continuei em silêncio. Parei de ouvir o que falavam. Estava me sentindo cansado e o cansaço transforma qualquer tom mais elevado em barulho.
Não tive expediente à tarde. Feito os afazeres, um descanso de 20 minutos acabou virando um cochilo de quase duas horas. Ao acordar, antes de colocar os pés no chão, lembrei da charge e minha mente, agora descansada, questionava a situação de outra forma. “E se o chargista quis criticar os que criticam e atacam a presidente, comparando-os a um grupo de fundamentalistas terroristas?”
Noite. Encontro com amigos. Descubro que a charge também foi tema no trabalho deles. Todos a atacavam. Doeu ouvir de quem semana passada propunha falar de amor para combater o ódio a sádica brincadeira de que, “se pudesse, mataria o chargista”. Lembrei da frase que me soou como um tiro.
Disse então o que suspeitava sobre a charge. Silêncio geral. Eu era o único a ver a questão daquela forma.
Novamente se fez silêncio quando alguém perguntou quem viu a charge.
Wi-fi ligado. Busca acionada. Eis a imagem.
Percebo que há algo escrito no desenho e estranho porque tantos falaram da imagem, mas ninguém havia comentado sobre o texto verbal. Será que esqueceram ou sequer leram? Quem saberá? As palavras da charge corroboraram com minha ideia sobre ela.
“Essa charge incita a violência”.
De fato, vi a charge sendo criticada por quem não a viu; por quem a viu, mas não leu; por quem a viu, leu, mas (imagino!) não a entendeu.
Tento imaginar como Einstein veria o mundo hoje, em tempos muito mais difíceis, em que é mais fácil abrir a boca para atacar e julgar do que abrir a mente e os ouvidos para pensar melhor e ouvir; em que é mais fácil reproduzir um discurso (seja ele qual for!) do que ver a alienação que esse discurso traz; em que é mais fácil abrir uma página de rede social do que abrir um livro.
Se você ainda não percebeu, saiba que essa crônica é partidária. Se você já suspeitava, largue a pedra e expanda a mente. Meu partido? Se o do Cazuza era “um coração partido”, o meu é um livro aberto – esse livro muitas vezes não lido e tantas vezes esquecido e que a humanidade teima em não aprender suas lições – chamado “Compreensão”.



João Paulo DiCarvalho
jpcmdm@hotmail.com
(Crônica publicada na Revista da Cultura online link:  http://www.revistadacultura.com.br/resultado/15-03-16/%E2%80%9CESSA_CHARGE_INCITA_A_VIOL%C3%8ANCIA_%E2%80%9D.aspx )

quinta-feira, 12 de março de 2015

ONDE OLHO A COISA MAIS LINDA?



Fui inventar de falar sobre “Garota de Ipanema”.

– Pessoal, eu vou falar hoje de uma das músicas nacionais mais tocadas e cantadas no mundo.

– O senhor vai falar agora sobre o “Aí, se eu te pego”?

E assim foi o duro começo.



...



– Essa música também foi gravada por Frank Sinatra, considerado um dos maiores cantores americanos, e conhecido com The Voice.

– Esse homem ganhou o The Voice Estados Unidos de que ano, professor?



...



– Professor, essa música é de velho.

– Por que diz isso? Só por que ela é antiga?

– Não, professor, por causa das palavras que ela usa.

– Como assim?

– Olha o nome: “Garota de Ipanema”. Se a música fosse da atualidade, ela seria “Novinha de Ipanema”.



...



– Professor, eu já ouvi falar dessa mulher aí que inspirou a música – disse uma aluna, que continuou contando sobre a vida da musa inspiradora de “Garota de Ipanema”: nome completo, nome da filha e o trabalho dela, nome da neta, do ex-genro...

Não eram informações tão pertinentes, vá lá, mas era uma informação, a única que a turma parecia saber sobre alguma coisa que, mesmo remotamente, se relacionasse a música “Garota de Ipanema”. Um pequeno passo, mas mesmo assim um passo. Experimentei, se me permitirem a comparação, a alegria de quem encontra a ovelha desgarrada, a moeda que se perdeu. Esbocei um tímido sorriso em um suspiro de alivio. “Achei ouro”, pensei.

– Muito bem. Como você ficou sabendo disso?

– Nesta revista de fofoca. – responde a aluna, que complementou dizendo que mãe e filha já haviam posado nuas em uma revista masculina.

Será preciso dizer que essa foi a informação que os alunos receberam com mais empolgação? “Ouro de tolo”, pensei. O sorriso, claro, desapareceu. O suspiro agora foi de decepção. Ouvi um aluno engraçadinho ainda falar:

– Oba! Vou passar a noite inteira estudando essa “Garota de Ipanema”.

Outro suspiro, só que mais demorado. Deixo para vocês adivinharem de quê era esse suspiro.



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– Você fez errado. Por que ensinar “Garota de Ipanema” para os alunos? Que serventia terá essa música na vida deles? Qual a utilidade? Eles vão precisar conhecer essa música para quê? – foi o que me disse um colega quando lhe contei da aula. Tomei um prolongado gole de cerveja para ajudar a engolir esse amargo comentário, que me espantou mais do que as coisas que os alunos disseram. Meu colega não abriu mão de seu ponto de vista, mesmo depois que eu expus os pontos positivos que a aula teve. Silenciei e recorri novamente ao amargo da cerveja, que estava mais fraco do que o amargo que se formava dentro de mim.

“Como assim, por que ensinar “Garota de Ipanema” já que ela não terá utilidade?” Era o que eu ruminava voltando para casa e lembrei de quando voltei para essa cidade desconhecida e descobria seus lugares e praças com os olhos carregados de encantamento. A música do Poetinha e do Maestro fala também disso. Da beleza, da graça, da poesia que transcende (e pode transcender) das coisas, das pessoas, do mundo.

É preciso tentar encontrar a beleza e a poesia nas coisas. Eu acredito que os alunos precisem, sim, dessa informação. Pode não ser a mais importante, pode até nem ser útil, mas ela é necessária – pelo menos para sobreviver nos momentos inevitáveis de tristeza e solidão.

– E onde estaria essa beleza e poesia na aula que você deu sobre a “Garota de Ipanema”? – alguém pode perguntar. Ela estava no grupo de alunos que pediram o cd emprestado; na aluna que pediu para tocar novamente a música; em três ou quatro que foram à biblioteca alugar um livro de poemas do Vinícius; na coisa mínima, “insignificante”, quase nada comparada com a grande maioria, mas que existe, que é diferente, que faz diferente e por isso faz a diferença, pequena, mas faz a diferença, um quase nada, mas que nos mostra que não foi em vão a aula preparada, que valeu a pena a garganta um pouco doida, que a semente do conhecimento não foi desperdiçada.

Toda geração tem seus ídolos, referências, heróis. Uma das grandes candidata a esse posto, em uma entrevista à Revista Época, disse que a mulher sempre foi vista e explorada como objeto e citou de exemplo a “Garota de Ipanema”. Pelo que disse, tal cantora mostrou desconhecer o que é a poesia, e talvez por isso sua música tenha sido objeto de análise em uma prova que não era nem de literatura nem de arte.

“Cecília Meireles. Vou levar o texto dela na próxima aula”, penso.

Se essa funkeira tornar-se ídolo dessa geração, que não seja por falta de boas opções. Farei a minha parte, vou apresentar-lhes Cecília Meireles, levarei um texto dela na próxima aula.

Então um verso da música “Garota de Ipanema” submerge das lembranças e acompanha-me no meu caminho de volta; continua comigo em casa; divide a existência com outros pensamentos e atenções, sempre ecoando, forte, mesmo durante uma leitura e um estudo; e permanece comigo até quando deito e só me abandona mesmo quando adormeço. O verso? “Ah, porque estou tão sozinho”. Deixo para vocês adivinharem a razão.



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João Paulo DiCarvalho
jpcmdm@hotmail.com

(Crônica publicada na Revista da Cultura, link: << http://www.revistadacultura.com.br/resultado/15-03-12/ONDE_OLHO_A_COISA_MAIS_LINDA.aspx >> e no Jornal O Povo on line. Link: http://www.opovo.com.br/app/jornaldoleitor/noticiassecundarias/cronicas/2015/03/16/noticiajornaldoleitorcronicas,3408030/ondo-olho-a-coisa-mais-linda.shtml).

segunda-feira, 9 de março de 2015

O MANIFESTO DE UM CRONISTA





Caro editor,

Não escrevo esta crônica somente em causa própria, mas em nome de todos os cronistas, os bons e também os ruins, e o faço pensando, sobretudo, no futuro deste gênero textual. A minha reivindicação, melhor, meu apelo - já que não posso forçá-lo a fazer o que almejo - é modesto, mas muito pertinente, pois, como disse, do desfecho depende o futuro das crônicas. O que quero afinal? Simplesmente que reserve um espaço no jornal para as crônicas. Imagino que o senhor a considere um elemento desnecessário, pois o espírito pragmático do homem contemporâneo não se coaduna a um texto jornalístico que não seja notícia, reportagem ou, no máximo, um artigo de opinião. Por isso, vou ensaiar alguns argumentos, se não na esperança de convencê-lo, ao menos de sensibilizá-lo para nossa causa.

Primeiro, no universo da literatura, a crônica é o que tem de mais prático: é um texto curto, construído com uma linguagem coloquial; às vezes, com uma pitada de humor, de crítica e ou de sentimentos, os mais românticos ou humanitários, tudo isso sob uma roupagem literária (entenda-se: redigido com uma estética que agrada a quem a lê). Para o leitor que ficou angustiado depois de ler as notícias de desastres, de corrupção e violência, a crônica pode enlevar o espírito e talvez desintoxicá-lo de tanta informação negativa.

Segundo, existe uma responsabilidade social dos escritores, como bem lembrou Viktor Frankl, “o menor serviço que o escritor pode prestar ao leitor deveria ser o despertar do senso de solidariedade” (Um sentido para a vida, 1989, p.83).

Ademais, senhor editor, é muito provável que não sejam as notícias que façam o brilho do jornal, já que todos os jornais noticiam praticamente os mesmos fatos. O diferencial, neste caso, pode estar no singular, no não convencional desse veiculo de informação. Creio não ser necessário lembrar que foram esses pequenos espaços que fizeram Rubem Braga; que ajudaram a consagrar Machado de Assis, José de Alencar e tantos escritores que enchem de orgulho a todos nós brasileiros. Mas também são os nomes desses jornais que abriram um espaço discreto a esses cronistas, que, mesmo após a sua última crônica, continuam perpetuados nas biografias desses pretensos eternizadores do efêmero.

Talvez o senhor até se sinta sensibilizado com o meu apelo, mas considere que a manutenção de um jornal é muita cara e que os espaços devem ser adequadamente aproveitados. Nisso estamos de acordo. Mas (tem sempre um “mas”), penso, na minha incontida ignorância, que com as versões on line, mais visitadas e mais lidas, não haveria um aumento de custos e assim estaria garantido também o seu compromisso com os leitores de mantê-los informados. É provável que o senhor contra-argumente, lembrando-me de que existem inúmeros espaços e possibilidades, dentre as quais os blogs pessoais, onde cada escritor pode escrever e postar suas crônicas. Concordo com o senhor, mais uma vez! Há, de fato, essas possibilidades, mas a literatura tem seus rituais, e os leitores fazem questão de conservá-los. Uma crônica publicada num blog é ainda uma crônica, mas se não traz a indicação que foi publicada originariamente num jornal, será sempre considerada “uma literatura menor”, sem credenciais e abalizamentos de um editor. Isso porque, caro editor, no Brasil, as crônicas são filhas adotadas pelos jornais, por isso, eles devem reservar um espaço para elas. São nos jornais e revistas que elas, primeiramente, sentem-se em casa e é lá que elas recebem as primeiras visitas do leitor.

Se após todas essas considerações, julgar que não é oportuno reservar um espaço para as crônicas no seu jornal, peço que apenas publique esta como apoio ao nosso manifesto ou apelo.

Atenciosamente,

Um cronista.



Epitácio Rodrigues
(Crônica publicada na Revista da Cultura. Link: < http://www.revistadacultura.com.br/resultado/15-03-03/MANIFESTO_DE_UM_CRONISTA.aspx >. Publicada também no Jornal O Povo on line. Link: http://www.opovo.com.br/app/jornaldoleitor/noticiassecundarias/cronicas/2015/03/09/noticiajornaldoleitorcronicas,3404298/o-manifesto-do-cronista.shtml )

quinta-feira, 5 de março de 2015

NÃO DEU NO JORNAL



“No Piauí de cada 100 crianças que nascem / 78 morrem antes de completar 8 anos de idade”. Esses dois versos, que formam a primeira estrofe de um poema de Ferreira Gullar, repetem-se em mais 14 versos e 3 estrofes.

Acredito que o poeta tenha tirado esse dado estatístico de alguma notícia. Não sei a data do poema, tampouco a da notícia e quero acreditar que o número de crianças mortas caiu, mas perceba a questão do tempo: ainda que o número caia a zero e que a mortalidade infantil tenha sido controlada; mesmo que um dia não haja um estado chamado Piauí (ele venha a mudar de nome, por exemplo); ainda assim o poema de Ferreira Gullar, que contém aquele dado funesto, será lido e estudado nas escolas e universidades. Eis aí uma diferença entre o texto jornalístico e o texto literário: a atemporalidade desse último.

No filme “Cazuza – O Tempo Não Para”, o protagonista, depois que ouve a leitura de uma pequena – porém morna e desdenhosa – nota sobre a sua banda em um jornal e é informado que a data do periódico “é de ontem”, arremata: “jornal de ontem, notícias de anteontem.” Essa frase traduz a ligação do texto jornalístico ao tempo. A informação deve ser nova, atualizada, com os dados precisos da última hora, aliás, minutos/ segundos, pois a informação antiga já não serve mais.

Se a notícia já vem com prazo de validade, nossa memória ajuda a sepultá-la. Aquela notícia que tanto me indignou no jornal vai arrefecendo com o capítulo da novela, se apagando na exibição do filme, sendo esquecida durante o futebol. O crime que tanto chocou e foi insistentemente noticiado vai perdendo as referências: vamos se esquecendo do ano, do local, do nome da vítima...

Fico incomodado com o fato da noticia ir se desbotando da nossa lembrança e cair no esquecimento. Só que tem algo que me angustia mais. É pensar no que não foi noticiado.

Não lembro se foi em 2010 ou 2011, não lembro a idade da jovem (era entre 17 e 19 anos), não me disseram seu nome. Só sei que estava grávida e, já sentindo as dores do parto, foi ao hospital que a mandou para casa. Não sei quantas vezes ela, sentindo as dores do parto, foi até o hospital e quantas vezes o hospital, dizendo que não estava na hora, mandou-a para casa (foram três ou cinco vezes?). Sei o desfecho: morreu a jovem mãe e o bebê. Não sei se era menino ou menina, não sei porque o hospital ficou protelando o momento de seu nascimento e qual justificativa usou para dizer que não era o seu momento de nascer, decretando com isso o seu momento de morrer. Não li isso no jornal. Soube desse fato por conta de amigos que conheciam o pai da garota.

Contei esse caso agora em fevereiro de 2015 em sala de aula. Uma aluna disse que o nome da jovem era Alana (ou Aline, ela não tinha certeza), tinha 17 anos e que a família precisou procurar a imprensa para que fizesse uma reportagem na época; outra disse que neste ano aconteceu um caso igual no mesmo hospital. Não li isso nos jornais.

Quantas mães e bebês morreram neste hospital de 2010 para cá? Quais seus nomes? Não quero uma imprensa sensacionalista que explore a dor de familiares, mas o que está sendo feito para que os bebês tenham assegurado e protegido o seu direito de nascer e as mães de serem mães?

Mas essas notícias não saem nos jornais. Onde nos informaremos da notícia que não deu no jornal?

Voltemos ao poema de Ferreira Gullar. Antes que alguém venha questionar o que o poeta tem contra o Piauí, faço a sua defesa revelando o nome do seu poema: “Poema Brasileiro”. A denúncia e reflexão que o poeta, com maestria, quis fazer vão além da delimitação geográfica contida no dado estatístico e eis aqui outra diferença do texto jornalístico para o literário: enquanto aquele deve ser claro, objetivo, direto e factual, o texto poético é plurissignificativo, por isso terá profundidade.

Profundidade que muitas vezes nos falta para descartarmos respostas instantaneamente prontas – “a culpa é da grande mídia”; profundidade que muitas vezes falta (e não buscamos) em nosso conhecimento – não me assusto se alguém leu os versos de Ferreira Gullar e pensou se tratar de mais um sulista que não gosta do Nordeste, sem saber que o poeta é maranhense; profundidade que muitas vezes falta no nosso jeito de ser e de relacionar-se com o outro.

Não sei o nome da mãe, nem o nome do bebê. Fiquei sabendo que mais mães e mais bebês morrem nesse hospital. Não soube disso pelo jornal e se resolvi contá-la nesse texto literário é por saber que, quanto mais essa história for desconhecida, mais ela continuará acontecendo. Omito o nome do hospital, mas você pode chamá-lo de Hospital Brasileiro – quem tiver profundidade para entender, compreenderá.



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João Paulo DiCarvalho


domingo, 15 de fevereiro de 2015

UM SENTIDO PARA VIVER


  
Hoje peguei despretensiosamente o livro Nietzsche para estressados, de Allan Percy, logo no primeiro capítulo estava estampado o titulo “Quem tem razão de viver é capaz de suportar qualquer coisa”. É claro, o texto que segue abaixo do título nada tem de Nietzsche, mas de Viktor Frankl, na obra Em busca de sentido, na qual narra sua vida de prisioneiro nos campos de concentração nazista e a descoberta da Logoterapia (ou terapia pelo sentido), uma terapia centrada na importância de se encontrar um sentido para a vida como caminho para superar as adversidades e os traumas.
Era para ser uma leitura descontraída, mas a breve referência a Viktor Frankl me fez lembrar as páginas do seu livro, nas quais descreve as condições subumanas que viviam as pessoas e das passagens que fala do amor à esposa como razão para continuar vivo. Depois que se lê aquele livro, soa como “discurso menor” ouvir alguém, em condições normais, queixar-se que sua vida não tem sentido. Concordo plenamente! A vida humana não tem sentido mesmo! Por isso ela é tão especial. Viver é uma experiência aberta. Estar vivo, de forma consciente e livre, como é o nosso caso, implica ter a responsabilidade de construir o sentido para a sua própria existência. Gosto do jeito que o filósofo cearense Manfredo Oliveira, num livro intitulado Sobre a Fundamentação, diz essa verdade: “O homem é uma questão, porque ele não é simplesmente, mas se experimenta como tendo que conquistar seu próprio ser. Sua especificidade é a indeterminação originária: nem os instintos, nem suas próprias instituições conseguem determiná-lo de forma definitiva”. Não determinado de antemão em seu ser, ele tem que tomar decisões sobre a sua própria vida, sobre o rumo da sua existência. É nessa luta contra a natureza, que vamos abrindo a clareira do mundo humano, lugar de construção do sentido da nossa existência individual e coletiva.
Existo! A vida pulsa em mim! Agora o sentido que darei a isso, a finalidade ou destinação não me é dado a priori. É uma tarefa que, realizando-a, realizo-me. Se parecer absurdo nascer, crescer, reproduzir e morrer, a minha existência não precisa ser somente isso. Existir é estar lançado num universo de possibilidades, das quais sou impelido a escolher algumas, descartar outras e sem a certeza de que estou fazendo a escolha certa. Existir é uma construção de si, na qual se tem sempre a possibilidade de falhar. “O homem é um ser de risco: ele pode não realizar seu ser”, lembra Manfredo. Por isso, a pessoa humana possui a capacidade de fazer antecipações racionais das consequências e riscos das escolhas, ponderar as possibilidades antes de decidir, rever as escolhas e os caminhos, mudar o rumo da sua vida e da sua história.
A vida não tem sentido porque é nossa tarefa maior construí-lo. Por isso, quando alguém me diz que a sua vida não tem sentido, não será grosseira dizer-lhe com toda boa educação: se sua vida não tem sentido, de certo modo, o problema é seu.


Epitácio Rodrigues, 08,02, 2015.


(Crônica publicada no Jornal O Povo On line, link: http://www.opovo.com.br/app/jornaldoleitor/noticiassecundarias/cronicas/2015/02/23/noticiajornaldoleitorcronicas,3397039/um-sentido-para-viver.shtml >  e na Revista da Cultura, link < http://www.revistadacultura.com.br/resultado/15-02-23/UM_SENTIDO_PARA_VIVER.aspx >. E postada também pelos redatores do interjornal AchixClip, link: < http://www.achixclip.com.br/noticia/31795315/ultimas-noticias/um-sentido-para-viver/.>

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

PERGUNTAS DE UM INSONE



Quase toda noite fico horas implorando ao sono que venha ao meu encontro, mas só sinto insônia e impaciência de estar acordado. Eu realmente gostaria de saber: afinal, para que serve uma insônia?
Enquanto o mundo dorme, eu estou desperto. Aproveito o grande silêncio para dialogar com filósofos, teólogos, sociólogos, pensadores políticos, humanistas; enfim, o interlocutor é escolhido pelo acaso. Entro na minha biblioteca quase sempre recordando as palavras de Maquiavel: numa carta a um amigo, ele conta que toda noite vestia sua roupa de gala e passava quatro horas no seu escritório conversando com os grandes homens do passado.
Hoje, mais uma vez insone, peguei o livro Introdução à Filosofia, de Roland Corbisier, um filósofo brasileiro. Não sei ao certo porque o escolhi, talvez para evitar temas teológicos. Ontem à noite li um salmo que dizia sobre Deus: “não dorme e nem cochila aquele que é o guarda de Israel”. Não quero ter essa mesma “sorte”. Se a insônia for a ocupação de quem está no céu, confesso que não me agrada a possibilidade de, após uma vida inteira com insônia, descobrir que a eternidade é apenas um perpetuar desse estado. Aliás, eu espero mesmo que esse negócio de ver e ouvir tudo, o tempo todo, seja só para Deus. E que para nós, pobres humanos, morrer seja, como disse Mauro Quintana, “finalmente poder dormir de sapatos”. Afinal de contas, quem dorme antes mesmo de tirar os sapatos não deve ter problema de falta de sono.
Bom, o fato é que, entediado demais para ler sobre o Céu, retomei uma leitura da semana passada. O livro estava marcado na página 126. Ali podia se ler: “o homem pergunta. E, por que pergunta? Porque precisa perguntar. Mas, por que precisa perguntar? Precisa perguntar porque não sabe e precisa saber, saber o que é o mundo em que se encontra e no qual deve viver.” E logo em seguida apresentou o veredicto: “para o ser humano o conhecimento não é facultativo, mas indispensável, uma vez que sua sobrevivência depende dele”.
Concordamos sobre isso: realmente o homem é um ser que pergunta. Talvez essa mania de arguir, de indagar seja porque o perguntar e o existir precisem andar juntos. Aliás, a cada insônia me convenço mais de que o ser humano é uma pergunta cuja resposta foi apenas balbuciada e está longe de ser satisfatoriamente respondida. Perguntar é a manifestação do nosso incontido desejo de saber viver. Desejo que nos move no projeto de ser-mais o que precisamos ser e sabemos que ainda não somos. O homem concreto, comum, embora incompleto, anseia por realizar-se, por completar-se, por uma plenitude: o ser humano de hoje deve ser superado, o que ele deve ser é ainda um projeto inconcluso.
Queria encontrar uma resposta, mas Corbisier só me falou da necessidade da pergunta. O problema de toda pergunta é que a resposta que a sacia abre o horizonte para outras tantas... Por falar em horizonte, o sol já começa a despontar. Um novo dia se inicia e minha pergunta continua sem resposta: afinal, para que serve uma insônia? Talvez, à noite, leia sobre psicologia. Porém, estou me convencendo de uma coisa: se essa situação não mudar logo, hoje sou um homem insone; amanhã serei ou um homem insigne ou um homem insano.

Epitácio Rodrigues, 18/01/2015
(Crônica publicada na Revista da Cultura, 18/02/2015 -  
link: http://www.revistadacultura.com.br/resultado/15-02-18/PERGUNTAS_DE_UM_INSONE.aspx).



O PERDÃO





Dias atrás, no corredor da escola, um aluno me perguntou se eu achava justa a atitude do pai na “história” do filho pródigo. Apesar de achar que o assunto diz respeito mais à Teologia do que a Filosofia, comecei a explicar que o objetivo da narração era evidenciar a misericórdia de pai. Mas ele insistiu:

- O senhor acha certo ele perdoar o filho mais novo? Será que ele foi justo com o mais velho?

Antes que pudesse responder, chegamos ao portão da escola. Aliás, esse é o problema das dúvidas de corredor. Elas nunca terão o tempo necessário para ser adequadamente respondidas. Mas o questionamento me fez pensar sobre o que se entende por perdão.

Pra começar, o perdão só existe como ato voluntário de alguém a outrem não por seus méritos, por isso é que ele revela o lado bom do ser humano. Sei que algumas pessoas dizem que esse ato é mais uma manobra para esconder a própria fraqueza: perdoar é para os fracos! Uma expressão da covardia de quem, sem ter coragem de devolver na mesma moeda, assume esta postura débil, mascarando-a de bondade.

O perdão é muito mais uma experiência de libertação, profundamente vinculada ao fenômeno da ofensa e do rancor. Toda ofensa supõe: uma relação interpessoal; um ofensor e um ofendido; uma ruptura ou crise dessa relação intersubjetiva. A ofensa, uma vez interposta nessa relação, impõe-se igualmente um culpado, frente ao qual tem-se duas alternativas extremas e uma intermediária. Situações extremas e proporcionalmente inversas: a vingança e o perdão; a intermediária, a justiça: “a cada um de acordo com o que lhe compete”.

Deseja vingança quem está rancorosamente estagnado no fato e momento da ofensa. O rancor fixa-nos na ofensa: aprisiona-nos naquele momento, naquele espaço e naquele fato. Mas não é só isso: vivemos aquele momento aprisionados pelo rancor, mas a pessoa que nos ofendeu permanece prisioneira nele dentro de nós. Vê-la, pensar nela é voltar á mesma cena, ao mesmo fato ao mesmo momento: o rancor é uma das prisões sem muros. Deseja a justiça quem se sente prejudicado pela ofensa e quer ser reparado do seu prejuízo material ou moral.

No caso do perdão é uma ação libertadora, voluntária, imerecida e consciente. Por isso, perdoar é uma das expressões mais eloquentes manifestação da capacidade de transcendência do ser humano. A ofensa sofrida causa grandes feridas na sensibilidade humana, guardar o rancor e alimentar o desejo de vingança são nossas compulsões mais naturais, não há nada de extraordinário nisso. Já o perdão é ato imerecido (é dispensado a quem é culpado da ofensa), voluntário (só acontece se você quiser) e consciente (você não esquece o dano causado) de rompimento com o rancor. É por isso que se chama perdão (per - para; donare - doar).

De tudo o que foi dito, ainda que de modo sumário, fica evidente para nós que é mais fácil alimentar a vingança do que perdoar. Assim, aos que pregam ser o perdão um sinal de fraqueza, devemos ao menos fazê-los perceber que é preciso muita coragem para empreender um ato tão bravo de covardia. O que não é o mesmo que esquecer. Pois como dizíamos, o perdão é um ato consciente, de tal modo que, longe de ser um esquecimento da ofensa, é sobretudo um processo de libertação do outro, mediante a experiência de auto-libertação de si. Perdoar é tomar a resoluta decisão de abrir essa prisão sem muros interior e dizer ao outro: ide em paz!
Epitácio Rodrigues
(Crônica publicada no jornal O Povo, Fortaleza-CE, dia 16/01/2015 , link : http://www.opovo.com.br/app/jornaldoleitor/noticiassecundarias/cronicas/2015/01/26/noticiajornaldoleitorcronicas,3383121/o-perdao.shtml)

Participação em Coletâneas

É isso mesmo O ensaio Basta só opinar sobre tudo, é isso mesmo!? , de Epitácio Rodrigues foi aprovado para compor a Coletânea É isso mes...